Me encanta ver o Barro, o cheiro, suas formas e generosidade.
Muito me preocupa a dureza que representa construir uma casa. Quanto de dinheiro deve ser desembolsado para este ato de emancipação, comprar terreno, material e mão de obra.
O que mais me intriga é que mais que 2/3 deste montante vai para comprar material. O qual geralmente vem de muito longe através das mãos de grandes corporações e multinacionais. Sem contar com o custo ambiental que geralmente não é pago, o alto valor dos materiais de construção se transforma em acumulo de riquezas para um exclusivo e reduzido grupo de indivíduos que tem um direito “divino” que comprar, por exemplo, o carro mais caro e trocá-lo todos os anos, construir mansões e fazer luxuosas festas particulares com orçamentos enormes os quais poderiam pagar com o valor de uma única badalação, algumas noites abrigadas e refeições dignas para milhares de excluídos.
Quanto mais tenho a oportunidade de trabalhar com matéria prima local, ou seja, utilizando recurso o mais próximo da obra que se pode encontrar, percebo como é caro para o meio ambiente e a maior parte da população sustentar um sistema de compras que esta a serviço do luxo de poucos. Será que para ter uma casa própria deve ser tão difícil assim?
Com uma fachada de que se pretende resolver o problema habitacional do país e o velho golpe do “desenvolvimento” (para quem?), vem os programas de governo que na verdade se mostram como mais um mecanismo para perpetuar uma secular estrutura paternalista no Brasil, que quando é desmascarada se reinventa com uma nova face, desta vez ela se finge de esquerda, uma política “social” que oferece ao povo crédito a juros baixos para construir sua casa, comprar automóveis e eletrodomésticos, no caso da habitação, por exigência sobre um padrão construtivo e falta de assistência técnica adequada, acaba-se por reproduzir o velho modelo, onde se gasta muito, destinando a maior parte do dinheiro para sustentar a festinha que logicamente os mesmos governantes que criam estes programas sempre são convidados.
Mesmo muitos tendo acesso ao crédito, poucos conseguem pagar e ao mesmo tempo ter uma vida digna, a maioria passa a vida trabalhando muito, indo para casa apenas para dormir poucas horas, pois precisam pagar a prestação, afinal, o valor de construir uma casa é altíssimo.
Estamos tratando da maioria dos Brasileiros, que é parte de um grupo social que paga as contas, pois além de seriedade, se não pagarem estão à mercê da força brutal dos poderosos (isso me lembra os filmes de mafiosos, o gangster sorridente cuidando de seus “filhos”. Coitados deles se não pagarem as suas dividas.). Talvez esta seja mesmo uma estrutura governada por mafiosos, na crise, ninguém vai socorrê-los, a não ser que seja um banqueiro. Enquanto a crise não bate a sua porta, tem um chefe de estado sorridente, pronto para te emprestar dinheiro.
O que isso tudo tem a ver com barro?
Minha sorte com Arquiteto é poder trabalhar para pessoas dispostas a aceitar o uso de técnicas e materiais adequados para a região aonde a obra esta acontecendo.
Trago o exemplo da Residência de Stelio Paca, onde foi realizada uma reforma e ampliação. Na parte nova, fizemos uma estrutura de Eucalipto roliço e fechamentos à base de terra crua fermentada no esterco sobre uma trama de bambu, conhecido como Pau a pique. Os acabamentos formam trabalhados a partir de receitas que levam polvilho da mandioca, leite em pó e linhaça. As portas e janelas são de madeira.
Optamos por este caminho, pois a cidade de Botucatu, onde a casa se localiza, tem muita terra boa para a construção e Bambu, de um tipo que não é bom para estrutura, mas excelente na armação do barro.
Apesar de ser uma técnica construtiva muito comum, geralmente encontramos paredes rachadas, a nossa não tem rachaduras. Aprendi muito a trabalhar com terra crua em um filme documentário Argentino apresentado por um grande amigo chamado “El barro, Las manos, La casa”, dirigido por Gustavo Marangoni, trata-se de documentar e mostrar a riqueza do trabalho ao longo de dois anos, de um mestre construtor chamado Jorge Belanko que constrói com terra crua, na região de El Bolson, Argentina.
O que mais me tocou no filme foi entender que o elemento principal para uma construção sensível como esta, é desenvolver a arte do bem construir: Com as ferramentas adequadas, conhecimento apurado sobre o material, e um movimento com as mãos com a mesma intensidade que um jogador usa os pés, por isso esta arte depende de um profundo amor pelo fazer. Este construtor é assim, é tão bom vê-lo trabalhar como é um belo espetáculo de dança, no final fica a vontade de sair por ai rebocando as paredes com terra, palha e esterco.
Inclusive a casa do Stelio. No inicio da obra fizemos um acordo: “Fazer o melhor e mais belo Pau a pique que já fizemos”. E é assim que ela é. Até que venha a próxima, mais esta nunca será menos apreciada, pois já foi a mais bela.
No final da obra a tinta foi feita a base de grude de polvilho e pigmentos. As paredes ficaram tão vivas (no sentido artístico e biológico), que parecem querer falar. Falam através do brilho nos olhos do mestre de obras Sr. Antonio ao mostrar sua obra, diz que é 100% barro e não tem trinca, quando esfregamos as mãos, não suja.
No brilho dos olhos do Sr Antonio eu leio “Autonomia”.
Se uma casa pode ser verdadeiramente bonita e bem construída, toda de barro, como um país com tanta terra pode ter gente sem teto?
O mesmo poderíamos dizer, que com tanto território e terra fértil, tem gente passando fome assistindo enormes áreas plantadas com soja, como se fosse um deserto. Enquanto os “donos” desta imensidão vão passear com seus amigos cowboys e governantes de jatinho.
Será que os atuais programas habitacionais têm realmente como objetivo acabar com o déficit habitacional? Ou é mais um fome zero?
TEXTO : Thomaz Lotufo
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